terça-feira, janeiro 03, 2012

(De 14 de Dezembro à noite:)


Subtrai-se ao momento o real.

Subtrai-se depois à escrita o momento.

Epicismos, malabarismos, e descuidos.

Análise e leitura fáceis - o difícil.

E o repetir o zumbir em torno disso? (Exaustão.)

Não me conhecesse eu, e diria falta de motes.

Dela se parte,

em parte.

Aonde se aporta?

Ninguém sabe.

Mas lá pelo meio,

lá pelo meio

após o relâmpago

repõe-se o rumo interior,

um de partida

rumo à obsessão:

poder ou não

estar

no horizonte

feito de motes

e da resposta

à migração

que é querer ser,

Ícaro.

(De 14 de Dezembro, à noite:)


Uma mala e um filósofo. (Que complicação! exclama.)

O relógio pára e recomeça três vezes.

Terminal da referência.

"Estou. Logo, inexisto."

Gente a lavar no rio. Outros que passam.

As metáforas de sempre reitero.

Percorro. Respiro.

Cinza e calçada.

Corropia-se o passeio.

A cidade.

Dupla: tudo e nada.

As pessoas que vêm de encontro.

A atenção já mecânica de não esbarrar nelas.

Desvios. Guinadas.

Um vendedor de castanhas. Uma sirene. Vidas.

Movimentos e espiral.

De fora para dentro, e por fim, de dentro para fora.

Vento.

O vento leva já até as pedras.

Mistura-se o caminho de volta e a infinidade da atmosfera.

Carga e descarga.

Implosão, explosão.

Sobra o vício. Terra só no papel.

Agita-se. Soma-se e subtrai-se terra ao papel.

Como um garimpeiro que procura o ouro. Como um pássaro que debica por lagartas. Como um poeta que anseia pelo mote.

"Vida, vida, vida!"

Palavras.

Estrondos, um cataclismo.

Palavras.

Cenário. O último take.

«Corta!»

Metragem curta.

(De 7 de Dezembro, à noite:)


Um banco de jardim. O peregrino sentado, ou a não produção. Diante, a passadeira congestionada.

Percebe-se a hora. Dá-se passos. Disfarçando o ruído de fundo. Dá-se mais passos. Zumbido mais e mais alto. Acelera-se.

Um carro que quase o atropela. Algures no lapso temporal a atenção. Distraído pela vida, o gingar torna-se ritmo. Em redor, as luzes da cidade.

Há uma arena. Mas não há uma arena.

Há um caminhante que atalha o nexo. Alguém atira um pião. O medo de ele cair faz continuar. Pela tangente da rotação.

Agente que se infiltra na plebe. Que cumprimenta a meia proximidade. Que assim mantém por uma corda bamba o seu próprio entusiasmo e inspiração. Mas que começa a abanar assim que lhe apontam o dedo e o chamam de espião. Meta-teorias da conspiração.

O passo abranda. É agora?

Uma esquina. Interrupção.

Há um estrangeiro que pergunta o caminho. "Where are you headed?" "To discover." "What?" "To where I'm headed first. Then, whatever there is there to find." "Oh, ok. Hmm let's see. That's a tough one.. You know, whatever - Just go ahead and take a turn around the corner. You see the people there? They should be able to tell you. Why don't you go and ask the people?"

...

"But I did. I just asked you."

Asserção certa. Mas certeira?

"How should I know? Why do you insist?"

"Because you're headed there too."

"Oh, give me a break with that misplaced yearn for direction of yours. Go ask someone else."

"The thing is, it's not just about a goal or a place. Not anymore."

"Ofcourse it is."

"Well yes. This was a question about direction.

But what matters now is that you hold the answer.

It is you who shall show me the way.

This is, as of now, about you."

"That can't be. No, no, no. That makes no sense. Who the hell are you after all? Jeese!"

...

A arena aparece agora completa e é circular. Dela, um palco para a imaginação furtiva, que espreita sempre atenta entre as pausas do zumbido, no zumbido das pausas. Flectem-se as garras as quais teimam em desferir continuidade. O domador dá sinais de cansaço. Uma noite que se adensa.

O peregrino deu por si a dormitar. Acorda agora.

Em redor, a cidade sem questões. Está-se sentado num banco de jardim em miniatura. Esta e outra árvore desfolhada permanecem lá. Trejeitos bucólicos de Natureza dispersos pela urbe de pedra e asfalto. Pretensões citadinas, o glamour das mulheres, a poluição dos carros, tudo assenta e perde-se na noite como uma luva de pele. Exterior. Distorções do século XXI.

Mas eis que é hora de retornar ao sossego absorvente do lar. Mete-se Björk, Faith no More, Morphine, Smashing Pumpkins, e peritos outros na arte de serem absolutos na arte. Aqueles por cujos moldes paralelos que constróem se e os ultrapassam e são deuses. Deuses em seus mundos remotos que quase nos abstraem do erro e da presença não divina. Respira-se.

Dorme-se pacificamente o hoje. Amanhã um passo a mais ou a menos ditará enfim as respostas.

(Espera-se.)

O diálogo, em vez do burburinho de fundo.